(PDF) Patologias no Sistema da Comunicação, ou o que Fazer

June 15, 2018 | Author: Anonymous | Category: Documents
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INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Salvador/BA – 1 a 5 Set 2002

Patologias no Sistema da Comunicação, ou o que Fazer quando o Objeto Desaparece1 Erick Felinto

Doutor em Literatura Comparada, UERJ, PhD candidate em Romance Literatures and Linguistics, UCLA. Professor Adjunto na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Chefe do Departamento de Teoria da Comunicação.

Resumo: o artigo apresenta um panorama do campo da comunicação no Brasil atual, problematizando a discussão em torno do objeto de estudos da disciplina. A partir dos exemplos da literatura comparada, sugere-se o abandono de uma noção de objeto fechada e a busca de novas metodologias de pesquisa e de uma nova visão sobre o dinamismo do campo. A teoria das “materialidades da comunicação” é discutida em detalhes e sugerida como fonte de inspiração para novos horizontes de pesquisa no campo da comunicação. Investigam-se as principais origens epistemológicas, políticas e institucionais do atual quadro de incertezas no campo da comunicação, sugerindo-se alternativas para a imposição de um consenso sobre o objeto a partir das instâncias institucionais. Palavras-Chave: Teoria da Comunicação – Literatura Comparada - Materialidade

A pesquisa em comunicação no Brasil atravessa hoje um momento crucial. Recentemente – devido pelo menos em parte ao estabelecimento de novas políticas de orientação para os cursos de pós-graduação – a questão do objeto da disciplina parece ter retornado com força total. Ela tem sido, sem dúvida, um dos grandes (e mais polêmicos) focos de debates da comunidade científica da comunicação nos últimos anos, como demonstra o tópico escolhido para a abertura do IX Encontro da Compós, 1 Trabalho apresentado no NP01 – Núcleo de Pesquisa Teorias da Comunicação, XXV Congresso Anual em Ciência da Comunicação, Salvador/BA, 04 e 05. setembro.2002.

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em junho de 2000: “A Constituição do Campo da Comunicação: Desafios e Tendências”1. A semântica do título pode ser interpretada já como sintomática de uma situação de incerteza: o grande desafio da comunicação seria o encontro de um objeto consensual, mas o que temos atualmente são apenas tendências. Mais recentemente, face ao resultado da última avaliação do programas de pós-graduação, esse problema assumiu significativas dimensões políticas e institucionais cuja discussão também é de extrema importância. Isso porque a maneira como o debate tomou corpo nesse período indica uma disputa acirrada pela hegemonia do capital intelectual da pesquisa em comunicação. E a situação talvez possa ser resumida ou simplificada no choque entre um conceito menos acabado e mais aberto sobre o que é a comunicação e outro, bastante mais limitado, que parece tomar a noção de meios de comunicação de massa como elemento caracterizador essencial dos fenômenos comunicacionais. Em uma disciplina recente e de natureza aparentemente transdisciplinar, como é o caso da comunicação, não surpreende que a questão do objeto seja continuamente retomada.

Contudo, a discussão hoje travada no campo indica também um fato

preocupante: a inexistência de um consenso minimamente definido entre os pesquisadores a respeito do objeto da comunicação. Isso me recorda uma curiosa (e provavelmente irônica) definição de cultura oferecida por Julian Huxley: “cultura é a denominação que os antropólogos dão à matéria central de sua ciência”2. Comunicação também é o nome que os teóricos de nossa área dão à matéria central de sua controversa ciência. Mas a definição, além de não definir efetivamente nada, também aponta para o fato de que, sem consenso na comunidade científica, a matéria central da comunicação deixa de existir. Uma conseqüência pragmática desse problema é a carência de critérios objetivos para definir se um artigo, livro ou projeto de pesquisa constituem, de fato, trabalhos de comunicação. E o quesito da adequação à área de conhecimento tornou-se, mais que nunca, fator fundamental para a concessão de bolsas e permissão para o funcionamento de novos programas de pós-graduação.

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Os artigos dos professores Muniz Sodré, Gabriel Cohn e José Luiz Braga, apresentados no encontro, foram publicados juntamente com textos de outros pesquisadores no volume Campo da Comunicação: Caracterização,Problematização e Perspectivas. João Pessoa: Editora Universitária, 2001. 2 Apud White, Leslie. O Conceito de Sistemas Culturais. Rio de Janeiro: Zahar, 1978, p. 19. 1 Trabalho apresentado no NP01 – Núcleo de Pesquisa Teorias da Comunicação, XXV Congresso Anual em Ciência da Comunicação, Salvador/BA, 04 e 05. setembro.2002.

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Tudo se passa como se, na ausência de critérios mais rigorosos, os órgãos de controle e fomento do setor tentassem impor à comunidade científica um determinado entendimento a respeito do que constituiria o real objeto da comunicação. Em relação a outras áreas de conhecimento mais sólidas e definidas, sofremos de um certo “complexo de inferioridade”, e para superá-lo necessitamos, com urgência, desenvolver um consenso formado a marteladas. Contudo, essa concepção particular sobre o campo da comunicação ainda não chegou a ser cientificamente justificada. Além disso, definir os “meios” como objetos não resolve nosso problema, pois sequer existe um consenso sobre a própria noção de mediação. Tenho a impressão, portanto, de que o problema pode ser desdobrado em dois aspectos: a) um propriamente epistemológico, que exigiria uma demonstração de que determinado conceito de comunicação deve prevalecer sobre outros ou, por outro lado, o simples abandono do modelo da definição fechada, e b) um político-institucional, dentro do qual se desenrola o conflito pelo domínio do capital intelectual do campo.

Pretendo concentrar-me na avaliação do primeiro aspecto,

sugerindo alguns instrumentos conceituais que possam nos oferecer maneiras mais profícuas de lidar com o problema da delimitação do campo. Entretanto, nas linhas finais do texto, tecerei também algumas considerações a respeito do aspecto políticoinstitucional. Parece-me que uma maneira legítima de iniciar o enfrentamento do problema seja buscar experiências e situações semelhantes em outras áreas de conhecimento próximas da comunicação. Estudando o que tem se passado em disciplinas aparentadas podemos encontrar sugestões adaptáveis a nosso contexto particular. Estou convencido de que e possível identificar um modelo epistemológico útil em uma área cuja tradição intelectual nos permitiria, à primeira vista, classificá-la como uma disciplina forte. A atual situação no campo literatura comparada3, cujas origens podem ser remontadas ao 3

Tenho insistido nessa aproximação entre comunicação e literatura comparada desde que tomei conhecimento do trabalho realizado por um grupo de pesquisadores reunidos especialmente na universidade de Stanford. A linha de pesquisa, chamada “materialidades da comunicação”, investiga o papel das matérias, formas e estruturas físicas dos meios de comunicação na determinação de atos de recepção e mensagens. Ver maiores detalhes nas linhas que se seguem. Cf. Felinto, Erick. “Isto não é um Cachimbo nem um Objeto de Comunicação: Notas sobre o Estado Atual da Teoria da Comunicação no Brasil e Algumas Convergências Interessantes com os Estudos Literários”, apresentado no XXIII Intercom, em Manaus, e Felinto, Erick. “Materialidades da Comunicação: por um Novo Lugar da Matéria

1 Trabalho apresentado no NP01 – Núcleo de Pesquisa Teorias da Comunicação, XXV Congresso Anual em Ciência da Comunicação, Salvador/BA, 04 e 05. setembro.2002.

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século XIX, com a formação do conceito de literaturas nacionais, permite aproximá-la da maior parte de nossas idéias a respeito da comunicação por pelo menos dois motivos. O primeiro é o que chamo de uma certa convergência de objetos. Em um fenômeno curioso para quem parte de uma concepção tradicional de literatura, a comparativística debruça-se, cada vez mais, sobre objetos que pareceriam mais adequados ao campo da comunicação que ao da literatura: imagens, meios de comunicação, tecnologias, atos de recepção. Na verdade, é possível mesmo afirmar que nos Estados Unidos, país onde nos últimos anos surgiram as contribuições mais originais ao campo da literatura comparada, a disciplina tende a fundir-se com os chamados “estudos culturais”. Esta é a opinião do crítico J. Hillis Miller, para quem essa transformação implica principalmente uma nova percepção dos estudos literários, mais centrados na teoria, na história e na política do que propriamente na interpretação do texto literário. E o que são estudos culturais?

Dentre os vários “axiomas” que Miller usa para descrevê-los, o mais

interessante para nós é o que os define como “multi-disciplinares (cross-disciplinary) e multimidiáticos em sua orientação” (1992: 14).

Nesse sentido, a tradição norte-

americana já consagrada dos media studies, por outro lado, parece menos representativa daquilo que, em nosso meio, tendemos a considerar como teoria da comunicação. Os media studies são mais factuais, pragmáticos e voltados principalmente às questões prementes da atividade jornalística ou publicitária, do estudo dos públicos ou das particularidades estruturais de cada meio. Enquanto isso, os estudos culturais adotam uma perspectiva eminentemente teórica, cujos principais focos de interesse são instrumentos e mecanismos de comunicação em sua inserção no ambiente cultural (não se deve esquecer que também a própria literatura é uma forma de comunicação). A proximidade entre estudos culturais e estudos de comunicação permitiu inclusive uma experiência efetuada no âmbito da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que instituiu um curso de pós-doutorado com área de concentração nesse novo setor de pesquisas. Boa parte daquilo que se publica

na Teoria da Comunicação”, in Ciberlegenda V, Niterói: UFF, 2001, disponível: http://www.uff.br/mestcii/rep.htm. 1 Trabalho apresentado no NP01 – Núcleo de Pesquisa Teorias da Comunicação, XXV Congresso Anual em Ciência da Comunicação, Salvador/BA, 04 e 05. setembro.2002.

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hoje em nossos periódicos científicos de comunicação poderia, sem grandes dificuldades, ser catalogado dentro da área dos cultural studies. E a convergência entre comunicação, estudos culturais e literatura comparada torna-se ainda mais significativa quando se leva em consideração uma das mais recentes e intrigantes linhas de pesquisa da comparativística: a chamada investigação sobre as “materialidades da comunicação”. Os antecedentes dessa linha de pesquisa podem ser encontrados, curiosamente, em outra experiência da teoria literária que também se aproximou bastante dos estudos de comunicação nos anos 70: a estética da recepção. Dentre os pesquisadores que se reuniram na escola de Constança, núcleo principal dos estudos de estética da recepção, estava o alemão Hans Ulrich Gumbrecht, então um brilhante discípulo de Hans Robert Jauss e hoje uma das figuras de ponta da pesquisa sobre as materialidades da comunicação. Das investigações ali realizadas, Gumbrecht preservou principalmente o ensinamento de que a literatura não podia ser pensada fora do horizonte históricocultural de sua recepção. Nesse conceito já existia, portanto, um indício de que a compreensão do texto como objeto de comunicação exigia a consideração de fatores materiais e culturais envolvidos em sua produção e consumo. Ao emigrar para os Estados Unidos em 1989, Gumbrecht aglutinou um grupo de pesquisadores com idéias comuns – a maioria de origem européia – no departamento de literatura comparada da Universidade de Stanford. Ali se desenvolveram os principais conceitos da materialidade da comunicação. Entre esses conceitos está a noção de que a estrutura material dos vários meios de comunicação é parcialmente responsável pela determinação da natureza e dos conteúdos das mensagens por eles veiculadas4. Em outras palavras, pensar a comunicação envolve pensar, em primeiro lugar sua medialidade, com todos os traços das forças materiais envolvidas nessas medialidades, bem como as formas de acoplagem (um conceito tomado a Maturana e Varela) que entretêm com seus “usuários”.

Outro conceito de grande importância é a noção de

“campo não-hermenêutico”. Gumbrecht argumenta que toda a trajetória filosófica do

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Naturalmente, essa idéia encontra antecedentes na célebre proposição de Mc Luhan “o meio é a mensagem”, assim como nos estudos de Jacques Derrida, entre outros pensadores. A escola das materialidades se confessa tributária desses pensadores, mas leva suas reflexões sobre o dado material a uma escala antes impensada.

1 Trabalho apresentado no NP01 – Núcleo de Pesquisa Teorias da Comunicação, XXV Congresso Anual em Ciência da Comunicação, Salvador/BA, 04 e 05. setembro.2002.

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Ocidente pode ser caracterizada como “hermenêutica”, por centrar sua atenção nos fenômenos interpretativos. No âmbito das materialidades da comunicação, surge uma epistemologia alternativa, agora centrada em fenômenos cuja natureza é anterior à interpretação e que cooperam para a construção do sentido, sem serem, eles próprios, sentido. Não dispomos de espaço suficiente para uma descrição mais detalhada sobre as teses da escola das materialidades da comunicação, mas tampouco é esse nosso objetivo.

Penso que as breves indicações aqui oferecidas são suficientes para

demonstrar o que considero uma interessante convergência de objetos entre os campos da literatura comparada e da comunicação. Mas mencionei anteriormente que havia ainda uma outra razão para considerar a trajetória da comparativística como um instrumento útil para a reflexão sobre nossos problemas no campo da comunicação. Trata-se da crise de paradigmas que atingiu, de maneira difusa, todas as disciplinas da esfera das ciências humanas nos últimos anos, mas que parece adquirir força especial nos campos da comunicação e da literatura. Essa crise se manifesta intensamente em diversos setores do saber - na antropologia e na sociologia, por exemplo - mas o sentimento de vacuidade do objeto dessas disciplinas não alcança o nível de insegurança característico da literatura. Como afirma Gumbrecht no ensaio em que me inspirei para o título deste artigo, “Cada vez é mais difícil definir seu objeto [dos estudos literários], pois o conceito tradicional que fundamentou a institucionalização da disciplina ‘literatura’ perdeu sua validade” (1998: 83). A “literatura” de Paulo Coelho poderia servir como exemplo dessa crise5, pois seu enorme sucesso é indicativo de que “hoje em dia, praticamente qualquer texto pode encontrar um leitor que o lerá ‘simplesmente’ por prazer, e neste caso tanto o texto quanto o leitor se situam no limite do sistema da literatura” (ibid.). Mas não é só isso. A dificuldade em definir o que é ou não fenômeno digno da atenção dos estudos literários também resulta de um problema oriundo do próprio termo “literatura”. Termo quase tão controverso quanto “comunicação”, a “literatura” está

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Para um estudo que conjuga, de forma instigante, comunicação, literatura e o fenômeno Paulo Coelho, ver o livro de Rufino, Joel.

1 Trabalho apresentado no NP01 – Núcleo de Pesquisa Teorias da Comunicação, XXV Congresso Anual em Ciência da Comunicação, Salvador/BA, 04 e 05. setembro.2002.

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marcada por uma noção de escritura que não vigorou em todos os momentos da história e que pode deixar de vigorar num futuro próximo, com a possível substituição do suporte material do texto literário por meio das novas tecnologias6. Questões como a da “oralidade” típica da experiência literária na Idade Média, ou o esfacelamento dos gêneros literários na modernidade, acabaram por corroer a fixidez dos conceitos da literatura. A situação do objeto no campo da comunicação é ainda mais dramática, já que a teoria da comunicação nunca chegou a alcançar o status disciplinar dos estudos literários.

Não existe unidade conceitual nas bibliografias que costumamos qualificar

como de “comunicação”, e em cada território geográfico-cultural os estudos de comunicação assumem feições diferentes. Serão eles, afinal, os media studies ou os cultural studies norte-americanos, ou então ainda as “ciências da informação e da comunicação”, como querem os franceses? Aliás, é no ambiente cultural francês que a abertura e indefinição dos estudos de comunicação parecem ser mais francamente encarados. Como corajosamente sugere Daniel Bougnoux, por exemplo, A “comunicação” resiste (...) às tentativas prematuras de fazer dela uma área fechada, universitária ou profissional. É uma disciplina desconfortável para o estudante se este espera um programa, objetos ou perspectivas, pois como a filosofia, ela compensa sua ausência de fundamentos ou de teoria dominante circulando entre os saberes e requestionando estes últimos (1999: 14). E Armand e Michèle Mattelart corroboram essa indefinição essencial em sua pequena e já popular História das Teorias da Comunicação: “Se a noção de comunicação constitui problema, a de teoria da comunicação não fica atrás” (1999: 11). Para os autores, o estatuto e as concepções sobre a teoria transformam-se grandemente na passagem de uma escola a outra. Não existe uma epistemologia dominante nem um acordo sobre os limites do campo da comunicação. Ainda que surja um consenso em torno da noção de medialidade – comunicação seria todo ato (humano) de transferência de informação através de algum meio técnico – o que fazer com os diversos elementos que participam 6

A esse respeito, consultar, por exemplo, Chartier, Roger. A Aventura do Livro: do Leitor ao Navegador. São Paulo: Unesp, 1998.

1 Trabalho apresentado no NP01 – Núcleo de Pesquisa Teorias da Comunicação, XXV Congresso Anual em Ciência da Comunicação, Salvador/BA, 04 e 05. setembro.2002.

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da comunicação sem ser comunicação? Será viável pensar e estudar um fenômeno de comunicação fora de sua circunstância histórica, cultural ou material? Um estudo sobre as estruturas epistêmicas da cultura pós-moderna, como a Era Neobarroca, de Omar Calabrese, é legitimamente um trabalho de comunicação em todos os seus aspectos ou apenas quando envolve diretamente a análise de algum produto ou meio de comunicação?

Um dos problemas que cabe enfrentar é a dificuldade de separar

comunicação e cultura. Umberto Eco chega a afirmar que todo ato cultural é um ato de comunicação. E numa cultura que já foi qualificada de midática, essa dificuldade parece ainda maior7. Outro problema, como lembra Luiz Martino, é que não possuímos sequer uma definição precisa do estatuto particular dos meios de comunicação em relação aos outros objetos técnicos que nos cercam (2001: 37). O que é efetivamente um meio? O que é um meio de massa? E o que significa “massa” no horizonte das chamadas novas tecnologias de informação e comunicação? As incertezas apenas se multiplicam. Mas então, que fazer diante desse quadro de incertezas, que angustia não apenas os estudantes, segundo crê Bougnoux, mas também

os

próprios

pesquisadores,

como

Retorno ao exemplo da literatura comparada.

bem

sabemos?

A trajetória da

comparativística nos últimos anos indica uma abertura progressiva em relação à natureza do objeto. Essa abertura pode ser encarada de forma negativa, como crise, ou positiva, como um enriquecimento da disciplina. Para Gumbrecht, a atitude do estudioso da literatura não deve ser, de modo algum, saudosista. Aceitar a abertura é aceitar uma realidade inescapável. A “patologia” central do sistema da literatura, segundo o teórico, consiste na proliferação de novas formas de comunicação – televisão, rádio, cinema, etc – que acabam por suplantar aquilo que teria sido até hoje a sua grande função: oferecernos ‘outras visões da realidade’ (1998: 112). É curioso que a origem central das patologias do sistema da literatura resida precisamente naquilo que alguns tomam como objeto central da teoria da comunicação: 7

Cf. Kellner, Douglas. A Cultura da Mídia. Bauru: Edusc, 2001.

1 Trabalho apresentado no NP01 – Núcleo de Pesquisa Teorias da Comunicação, XXV Congresso Anual em Ciência da Comunicação, Salvador/BA, 04 e 05. setembro.2002.

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os meios tecnológicos. Mas esse fenômeno ajuda a explicar também o percurso que os estudos literários parecem estar desenvolvendo: face à “fragmentação” da noção tradicional do literário, os comparativistas voltam sua atenção tanto para as circunstâncias que sempre cercaram o objeto e o ato de comunicação literária como para os instrumentos que agora parecem substituí-los. Há uma angústia presente no campo da literatura comparada, como indica o prefácio do livro de Cláudio Guillén, The Challenge of Comparative Literature. Trata-se de um campo que parece possuir antes um certo anseio que um objeto específico (1993: 4). Contudo, a angústia não pode ser contornada com subterfúgios. Gumbrecht aí enxerga uma oportunidade, e não hesita em sugerir que o desaparecimento da noção tradicional de literatura pode indicar a “necessidade de substituirmos o campo tradicional abarcado pelos estudos de literatura por outro mais amplo, o das Ciências Humanas” (1998: 167). No volume de ensaios Materialities of Communication, organizado por Gumbrecht e Karl L. Pfeiffer, a diversidade de temas abordados é assustadora. Ela provoca certa angústia, e dá-nos a impressão de que não existe objeto que unifique os percursos das pesquisas. A impressão é correta. Não existe um objeto, mas antes uma perspectiva, um certo tipo de experiência, que Pfeiffer define como uma “cena de multidirecionalidade (...) uma metáfora geral para o impacto conjunto de instituições (...) e dos meios que eles predominantemente empregam (...)” (1994: 3-7). Se é possível falar em uma epistemologia “pós-moderna”, seu principal traço seria o rompimento das fronteiras disciplinares e o esfumaçamento das noções de objeto e campo. Nesse sentido, a tão falada inter- ou transdisciplinaridade característica da teoria da comunicação, vai deixando também de ser uma marca diferenciadora, já que a tendência, como testemunha o forte exemplo da literatura comparada, é a flexibilização das fronteiras de todas as disciplinas das ciências humanas. Quanto ao objeto, não seria justo falar simplesmente em um desaparecimento, mas antes na possibilidade de trabalhar com zonas de indefinição. Nesse sentido, o termo “campo” parece, inclusive, mais apropriado que “objeto”, mas um campo cujas fronteiras encontram-se em constante processo de revisão.

Na literatura comparada, a concretude do objeto

“literatura” vai dando lugar a uma multiplicidade de objetos tratados a partir de 1 Trabalho apresentado no NP01 – Núcleo de Pesquisa Teorias da Comunicação, XXV Congresso Anual em Ciência da Comunicação, Salvador/BA, 04 e 05. setembro.2002.

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determinado ponto de vista. No paradigma mais tradicional, o ponto de vista de atos interpretativos por comunidades de “leitores”; no novo paradigma proposto pela escola das materialidades, o ponto de vista dos mecanismos materiais que colaboram para a produção de sentidos em uma cultura.

Por uma Definição Operatória

Parece-me que a teoria da comunicação pode aprender duas lições valiosas com os exemplos da comparativística: primeiro, a impossibilidade, no atual cenário intelectual, de recortar objetos precisos e demarcar campos fechados; segundo, a necessidade de prestar mais atenção às questões envolvidas na estrutura material dos meios. Em seu ensaio “Constituição do Campo da Comunicação”, José Luiz Braga oferece um competente resumo da situação corrente na área, com as possíveis opções que se nos apresentam.

Essas opções poderiam ser traduzidas em duas atitudes

principais: uma mais abrangente e aberta, que toma como “objeto” uma noção de interação social (postura adotada, por exemplo, pelo professor Francisco Rüdiger) e outra mais fechada, que se concentra sobre a noção dos meios tecnológicos. Braga inclina-se para a primeira opção, contudo, acaba sugerindo uma atitude intermediária, que concentra sua atenção sobre os meios, com toda a importância histórico-cultural que lhes é devida, “mas não exclui outros objetos desde que neles se dê como enfoque principal a questão das interações comunicacional [sic] que os caracterizam” (2001: 25). Nesse sentido, tenho a impressão de que um de nossos principais esforços deverá ser o estudo dessas “interações comunicacionais” em seus múltiplos aspectos. Devemos esboçar mapas, configurar territórios, mas sempre com a consciência de que tais desenhos são construtos provisórios e sujeitos à permanente revisão. Não se trata de buscar definições acabadas e muito menos de cair na armadilha ingênua, mas que hoje parece nortear as políticas de fomento campo, de definir os estudos de comunicação como estudos sobre os “meios de comunicação”. Se podemos falar de patologias no sistema da comunicação, uma das mais daninhas me parece ser esse desejo simplista e reducionista de recortar um objeto empírico tranquilizador para o campo e um 1 Trabalho apresentado no NP01 – Núcleo de Pesquisa Teorias da Comunicação, XXV Congresso Anual em Ciência da Comunicação, Salvador/BA, 04 e 05. setembro.2002.

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determinado modelo de pesquisa que valoriza resultados pragmáticos.

Creio que

poderíamos identificar essa patologia como um imperativo tecnicista. Em um cenário em que as verbas para pesquisa são cada vez mais escassas, parece lógico propor estratégias de pesquisa que busquem simular os resultados obtidos por áreas de conhecimento mais “duras”. Não há dúvidas de que ainda há bastante trabalho a ser feito para que nossa área se consolide como campo de pesquisas, mas esses resultados não serão obtidos enquanto trabalharmos com a ilusão de uma mímese possível de outras disciplinas onde a obtenção de resultados “concretos” é mais visível. A natureza complexa, instável e fluídica dos fenômenos comunicacionais exige que estejamos atentos ao caráter operatório de nossas definições. Assim como os comparativistas têm aprendido a lidar com as incertezas de sua área (próprias, aliás, deste nosso cenário pós-moderno), temos de aprender a flexibilizar nossas concepções de campo, objeto e disciplinaridade. No caso da pesquisa sobre as materialidades da comunicação, a noção fechada de objeto foi substituída por um enfoque e uma metodologia de pesquisa particulares. Não existe campo definido a priori, mas sim o estudo de um fenômeno que se manifesta em vários campos e objetos: a medialidade.

Para

Gumbrecht, o futuro dos estudos literários está na tematização das tecnologias da comunicação e de seu acoplamento com o corpo humano (na verdade, estas parecem ser os dois grandes horizontes de estudo das Ciências Humanas atualmente). Curiosamente, essa noção de materialidade sempre esteve praticamente ausente dos estudos de comunicação em sua trajetória histórica. Dominados pelo paradigma hermenêutico, em nossos modelos e escolas estivemos interessados eminentemente pelos fenômenos de sentido. Contudo, a teoria da comunicação seria um lócus ideal para o estudo da materialidade e seu papel na constituição do sentido. O campo das novas tecnologias - que envolve temas como a transformação do corpo e a noção de realidade virtual – seria enormemente enriquecido pela perspectiva das materialidades. Como afirma Vivian Sobchack em um dos ensaios mais interessantes do volume organizado por Gumbrecht: “[a tecnologia] sempre é também ‘incorporada’ e ‘vivida’ por seres humanos que se envolvem nela dentro de uma estrutura de sentidos e 1 Trabalho apresentado no NP01 – Núcleo de Pesquisa Teorias da Comunicação, XXV Congresso Anual em Ciência da Comunicação, Salvador/BA, 04 e 05. setembro.2002.

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metáforas na qual as relações sujeito-objeto são cooperativas, co-constitutivas, dinâmicas e reversíveis” (1994: 85). Em tempos de crise e indefinição, o grande desafio é encontrar não apenas novos campos e objetos, mas também novas maneiras de investigá-los. Mas isso é tema para o futuro. Por agora, precisamos apenas aprender a lidar com a inevitável desaparição do objeto.

BIBLIOGRAFIA BOUGNOUX, Daniel. Introdução às Ciências da Comunicação. Bauru: Edusc, 1999.

1 Trabalho apresentado no NP01 – Núcleo de Pesquisa Teorias da Comunicação, XXV Congresso Anual em Ciência da Comunicação, Salvador/BA, 04 e 05. setembro.2002.

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1 Trabalho apresentado no NP01 – Núcleo de Pesquisa Teorias da Comunicação, XXV Congresso Anual em Ciência da Comunicação, Salvador/BA, 04 e 05. setembro.2002.

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